Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

DORES DE UM POETA LONGE DE CASA

 

 

Literatura // Dores de um poeta longe de casa
Nahima Maciel // Correio Braziliense

 

 

Quando Paulo Kauim era adolescente, sua Taguatinga (DF) estava mais próxima da Paris de Rimbaud e Mallarmé do que da poesia marginal rodada nos mimeógrafos do Plano Piloto. Pernambucano filho de repentista sindicalista, o garoto conhecia bem os poetas malditos franceses e mal a vanguarda brasileira. Até que um dia descobriu a poesia concreta de Haroldo e Augusto de Campos. "Fiquei sem fala. Sem escrever. O encontro com a poesia concreta foi traumático." Kauim resolveu então reler João Cabral de Melo Neto. "Para retomar o fio", diz. Demorô começou a tomar forma na época do trauma e levou duas décadas para chegar ao formato que o poeta de 46 anos acaba de lançar.

O livro é compilação de poemas escritos entre os anos 1980 e 2008. "Fui muito rigoroso na seleção porque queria que os poemas tivessem uma fala com os dias de hoje, não queria nada datado. Optei por uma polifonia", conta. "Criei uma estrutura em que a pessoa pode começar a ler em qualquer página, é uma leitura flutuante." Demorô também pode ser lido em blocos. O autor agrupou os poemas em módulos temáticos. Há uma parte dedicada aos haicais escritos nos anos 1980 e outra sobre a cultura negra, série de "africânticos" em que o autor celebra o samba e outras manifestações trazidas pelos escravos africanos. A cultura hip hop e as mazelas sociais brasileiras estão em outro bloco. A diversidade de temas é fruto do diálogo de Kauim com conjunto variado de referências.

Nascido em Timbaúba, na zona da mata pernambucana, o poeta chegou a Brasília em 1972. O pai fugia da perseguição política da ditadura que rendera uma prisão na cidade natal. A família se instalou em Taguatinga, de onde Kauim só saiu em 2002. "Na época, não tinha nada para fazer em Taguatinga, era barro para todo lado. Comecei a me interessar por leitura e ia para a biblioteca devorar os grandes poetas", lembra.

Edições caseiras - Depois do primeiro contato com os malditos franceses, o poeta voltou os olhos para o Plano Piloto e descobriu a poesia marginal brasiliense. Nicolas Behr e Franciso Kaq viraram referências. A turma do mimeógrafo fisgou o menino da satélite. "O convívio com esses poetas foi formando a minha poesia. Poesia é coisa à margem, não faz sucesso, mas acho que ajuda a fazer um mundo menos bárbaro. Faço poesia para isso." Muitos dos versos editados em Demorô não são inéditos. Saíram em livrinhos caseiros como Um centavo, Pelo pelourinho e Carruagem de polícia, mimeografados e montados artesanalmente.

O interesse pelas linguagens populares veio do pai repentista e fez Kauim mergulhar nas misturas. "Nunca acreditei na separação entre o popular e o erudito." Também nunca acreditou no isolamento. Por isso, Demorô é um trabalho coletivo. Tem participação dos artistas plásticos Fernando Carpaneda e Masanori Ohashy, responsáveis por parte do projeto visual do livro, e do escritor Geraldo Lima. "Queria dar um caráter coletivo ao livro porque a gente está vivendo época de individualismo", garante o poeta, que, na década de 1980, embarcou na experiência coletiva ao publicar revistas como Garganta e Ismo, experiências destinadas a divulgar a produção cultural brasiliense. Hoje, o coletivo fica por conta das aulas de arte-educação ministradas em escola de ensino básico da Fundação Educacional do Distrito Federal. "Acredito que por meio da arte é possível ampliar o universo dos alunos de forma crítica."

 

 

Serviço

Demorô, de Paulo Kauim
Editora: Thesaurus
Preço médio: R$ 40


publicado por paulokauim às 04:54
link do post | comentar | favorito
|

.blogosfera

contador grátis

.pesquisar

 

.Agosto 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


.posts recentes

. nossa pista de sk8 não va...

. sonata em d

. meu amigo

. no existen los dioses

. 2014 começa na porrada de...

. nelson luiz

. cubahia

. semente

. outro brasil

. vida

.arquivos

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Abril 2014

. Janeiro 2014

. Outubro 2013

. Agosto 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

.tags

. todas as tags

.favoritos

. Carioca de (al)gema!

. Graffitis - Discussão

. Rua da Feira

. Tropecei na rede #003

.links

.mim é índio com negro com branco

blogs SAPO

.subscrever feeds