Terça-feira, 23 de Março de 2010

Faróis acesos

 

 

 

 

17/01/2009 - CORREIO BRAZILIENSE - DF

 

 


Faróis acesos

 

 



 

Com trajetórias e estilos bem diferentes, os poetas Eudoro Augusto e Paulo Kauim incorporam vida e paisagem brasilienses às suas mais recentes obras

 



Fernando Marques
Especial para o Correio



A tendência antirretórica e o pendor à brevidade são traços pelos quais se pode ligar a poesia do veterano Eudoro Augusto à do estreante em livro Paulo Kauim - autores, no mais, muito diferentes entre si. Radicados em Brasília e atuantes na cidade, os dois poetas publicaram livros recentemente. O trabalho de Eudoro chama-se Um estrago no paraíso e reúne dois conjuntos de poemas. O de Kauim leva o título de demorô (em minúsculas mesmo), devido ao fato de esta ser a sua primeira coletânea.

O lisboeta-carioca Eudoro Augusto, na casa dos 60 anos, originariamente ligado à geração que fez a poesia alternativa ou marginal na década de 1970, publica seu nono volume de poemas; o pernambucano Paulo Kauim, cerca de 20 anos mais moço, embora esteja longe de ser um autor inédito, divulga o primeiro livro agora. As bossas marginais de Chacal, Charles ou Chico Alvim parecem ter influído sobre os textos, em geral brevíssimos, de Kauim, nos quais surgem ainda, evidentes, os laços com a poesia concreta - praticamente ausentes da poesia reflexiva de Eudoro.

Silêncio sépia
Há sete anos, tive oportunidade de resenhar Olhos de bandido, oitavo livro de Eudoro Augusto. Volto à poesia do mestre comentando seu nono livro, Um estrago no paraíso, que contém dois grupos de poemas: "Carta selvagem", textos escritos entre 2002 e 2006, e "Claraboia", que corresponde a trabalhos mais recentes.

Os diversos conjuntos de textos compõem projeto uno, conforme o autor adverte na abertura: trata-se de "trilogia iniciada com Olhos de bandido, de 2001". Os traços gerais da poesia de Eudoro, que vêm sendo depurados há 35 anos, de fato permanecem nítidos em Um estrago no paraíso.

Ao falar sobre o livro anterior, notei que seus textos frequentemente partem das palavras cotidianas para entortá-las, reescrevendo-as pela metáfora ou pelo atrito entre o corriqueiro e o inefável. No livro agora lançado, o poeta mantém-se fiel a si mesmo, talvez aprofundando a sua maneira de exprimir a vida urbana contemporânea, prensada entre afetos, desejos e contas a pagar.

Vale perceber ainda, em Um estrago no paraíso, certo processo recorrente que está entre os traços singulares dessa poesia: a capacidade de propor cenas (algumas delas relativas a encontros entre homem e mulher), tirando-as da vida e reinventando-as. Ao narrar esses episódios, misturados à fantasia, o escritor descreve a índole dos personagens e o contorno dos ambientes de maneira simultaneamente sugestiva e precisa. Um exemplo é "Arizona", quando o bar vira saloon de cinema, ou "Depois da festa", onde se lê que "o amor pode não ser profundo/ como o decote que o inspira".

Esse processo de transfiguração surge também quando o personagem lírico centra-se em si mesmo, como é o caso em "Marítimo", com os objetos descobertos pela luz da manhã, ou em "As horas", onde "Brasília adormece em silêncio sépia/ e o poeta se move na direção do horizonte", composições ótimas. Alguns poucos textos, ancorados no trocadilho ou no registro instantâneo, parecem menos vitais para o resultado global do livro; mesmo esses poemas guardam, contudo, a marca bem-humorada do autor.

Deve-se destacar ainda o Eudoro Augusto epigramático, em versos que resumem o confronto entre emoção caudalosa e paisagem árida: "Brindamos mas não bebemos./ O vinho do sentimento/ não cabe no copo da realidade". Um estrago no paraíso fala fundamentalmente dessa "paixão maior do que a cidade", sem a qual viver não faz sentido. Faz?

Linhas do buriti
Em texto com o qual se apresenta, Paulo Kauim conta que a poesia lhe chegou primeiramente pelos ouvidos - "via voz de meu pai repentista ainda na infância em Pernambuco". Outros alumbramentos, diz, foram a descoberta da poesia concreta e, depois, a leitura dos versos descarnados de João Cabral de Melo Neto.

Coerente com a preocupação visual que o interesse pelo concretismo assinala, o poeta editou livro que também procura conquistar o leitor pelos olhos, assessorado pelo bom projeto gráfico de Masanori Ohashy. O volume está dividido em oito partes, dedicadas a temas ou a técnicas poéticas distintas, e traz alguns de seus melhores textos na seção onde predominam poemas concretos.

Duas observações podem ser feitas acerca de demorô. A primeira delas refere-se não apenas ao livro, mas à tendência na qual ele se insere, tendência que remonta às vanguardas do início do século passado, projetadas até os dias atuais. Trata-se da tentativa de captar estes tempos segundo a multidão de informações que nos assaltam os sentidos, vindas dos diversos veículos, do outdoor à internet, numerosos e estridentes. Falo da estética do "tudo ao mesmo tempo agora".

A dúvida que se deve levantar, inspirada na leitura dos poemas breves e ágeis de demorô (sobretudo os que buscam representar o estado de espírito resultante do permanente assédio aos sentidos), relaciona-se à confusão que se acaba fazendo entre a realidade, no que possa ter de essencial, e a pseudorrealidade, meio alucinatória, composta por estímulos dispersos na cidade contemporânea.

Quando, por exemplo, o poeta associa Duchamp às favelas, Mangueira a Mondrian, não estará reunindo coisas que só em sonho aparecerão ligadas? A consistência do real decide-se nas salas sombrias dos poderosos (veja-se a guerra no Oriente Médio), mais do que em nossos bem-intencionados delírios. Reitero: não se trata aqui apenas da poesia de Kauim, mas de tendência nacional e internacional, proveniente de Mallarmé e idosa de mais de um século.

A segunda observação refere-se especificamente à arte de Kauim. O pendor à extrema síntese, presente em quase todo o volume, torna sua poesia demasiado dependente dos achados, da eletricidade bruscamente liberada (ou não) no atrito entre as palavras.

Quando os achados se realizam, o poeta é capaz, sim, de oferecer belos momentos aos leitores, de sentido ora lírico, ora crítico. Instantes de poesia genuína como aquele em que se define com base na paisagem, um pouco à maneira de Cabral e nisso aproximando-se de Eudoro (que também tematiza a linda e triste Brasília): "que / mi / nha / poe / sia / te / nha / a / eco / no / mia / das / li / nha / s / do / bu / ri / ti". Ou ainda, referindo-se à felicidade virtual: "ADSL / solidão / mais / veloz".

Fechando estas notas, será interessante ressaltar que os dois autores incorporaram vida e paisagem brasilienses a seus poemas. Cada um a seu modo, ambos operam o registro, natural e necessário, de aspectos da existência nesta cidade, hoje.

Fernando Marques é jornalista, doutor em literatura brasileira pela UnB. Publicou Retratos de mulher (poesia, Varanda), Zé e o livro-disco Últimos (peças teatrais, Perspectiva)

De Um estrago no paraíso, de Eudoro Augusto

Correios & Telégrafos

Chegou alguma coisa pra mim?
Alguma carta? Um convite? Uma encomenda?
Nada. E as contas?
As contas chegaram.

Carta selvagem

Sem traços aparentes de violência sua natureza selvagem vai exterminando aos poucos as espécies que ainda habitam a costa ocidental do meu coração.

Frescor

Cada vez que você sai do banho está recriando a primavera.

De demorô, de Paulo Kauim

mini rap agalopado para chico science

este
poema
foi
escrito
pra
ser
falado

não
pra
página
ou
parede
e
sim
pra
tímpano
e
martelo

o
poema
falado
é
pistola
no
ouvido

grito
saído
do
papiro


biu

meu
pai

em
pernambucana prosódia

entre
calos

entre
canas

repete
:

a melhor
religião
é
o
outro

dia

nu
bla
do

dia
dor
im

sem

rio
bal
do

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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