Quarta-feira, 8 de Janeiro de 2014

2014 começa na porrada desse texto

 

 

 

 

 

DEMORÔ ABALOU BANGU

 

Marcos Fabrício Lopes da Silva*

 

 

 

 

 

O tratamento desumano que a atual configuração do capitalismo dispensa aos trabalhadores nunca foi novidade no Brasil. Infelizmente, o país teve 400 anos de história imersos em uma economia escravocrata. Fomos condicionados, em nossa cultura e educação, a tratar como “serviçais” e “funcionais” todos aqueles que exercem o trabalho. Somam-se a esse quadro nossos valores éticos de origem católica, que associam o trabalho com a punição dos pecados e a inferioridade pessoal. O poeta Paulo Kauim, em Demorô (2008), ‘abalou Bangu’, ao acender a esperança e apagar a escuridão, mesmo lidando com a paradoxal condição do sujeito brasileiro, homem-bomba e homem-bamba num só ser: “caravalha/a ira/a usura branca/não sabiam/que dos podres porões/das escravavelas/sairia/o/samba/o vento/no lenço/no pescoço/no arco/na lapa”.

Kauim, com despojamento neologístico, lança mão do criativo “escravavelas” para mostrar explicitamente a verdadeira intenção da fúria colonialista promovida por Portugal no sentido de explorar ao máximo as riquezas materiais e imateriais do Brasil, tratado como mero apêndice da Coroa Lusitana. Eça de Queiroz teve a pachorra de dispensar dois comentários infelizes sobre o Brasil. Em Uma campanha alegre, o escritor disse: “Porque, enfim, o que é o brasileiro? É simplesmente a expansão do português”. Falou, pela cloaca, que: “O brasileiro é o português – dilatado pelo calor”. Desconstruindo o lusotropicalismo, Kauim destaca outra realidade: inteligência, criatividade e sabedoria eram transportados nos tumbeiros, mesmo que os traficantes só tivessem olhos para o potencial mercadológico cravado na exploração trabalhista da mão-de-obra negra. O poeta, assim, mostra que a elite brasileira se fundamenta em um moralismo europeu colonial, defensor da ordem pela via da igualdade e do respeito ao próximo, sendo ao mesmo tempo defensor da escravidão e da divisão da sociedade entre nobres e servos. Um discurso moral perverso, legitimador dos interesses privados das classes dominantes sobre a conduta e a cultura das classes trabalhadoras. Quem presta atenção nos “africânticos” de Paulo Kauim não cai no conto da democracia racial brasileira propagada em Casa-grande e senzala, de Gilberto Freyre.

O autor de Demorô nos oferece um achado conceitual para contemplar a nossa musicalidade genuinamente talentosa: “samba:/ pára-raio/do morro”. A beleza se coloca no lugar na tristeza para promover a alegria, graças ao empenho dionisíaco de nossa brava gente brasileira que sacou, desde priscas eras, os efeitos tenebrosos do apolíneo mundo excludente. Kauim sugere como trilha sonora dos afetos outros ritmos nascidos na quebrada, onde a reta se curva para contemplar a riqueza da diversidade: “amor/ não/ é/ buraco/ é/ cratera/ de/ abraços/ fogo/ e/ gelo/ rubi/ e/ mano/ brown/ na/ mesma/ estação/ de/ rádio”. O escritor ainda destaca o amor como a celebração do encontro de peles que se admiram, de almas que se congratulam. Tratar o maior dos sentimentos como buraco é bestializar o sublime que só o afeto açucarado pode nos oferecer. Com a graça de tirar proveito do quente e do frio, sem a gente precisar apelar para o morno das conveniências. A convivência é uma corda estendida entre dois pólos: a distância e a aproximação. Como mágicos do amor e malabaristas da dor, a gente se mistura, promovendo vínculos de qualidade. Que o nosso rádio não fique surdo diante da música polifônica e dialógica das ruas. No beco escuro, explode a violência – como ressaltam Os Paralamas do Sucesso, na voz de Herbert Vianna. Porém, Paulo Kauim nos revela que no beco escuro também explode poesia.

Em um apurado trabalho de educação sentimental, o poeta traz as várias facetas do amor para o tablado literário das exposições sem imposições: “entre tantas patologias/contaminado sou/ pelo amor/ amor é doença/ e cura/ mordida/ e antídoto/ amor fura olhos/ beija pupilas/ amor é só/ é troca/ sem/ troco/ epiderme/ do/ ódio/ ir ao trabalho com amor/ é suicídio/ beijar na boca sem amor/ é abismo/ sexo sem amor/ é só sexo/ só sexo é mais só/ amor contamina/ sem cegar/ amor entra no sangue/ sem coagular/ amor desentope”. Esta nobre concepção afetiva lê a contrapelo a configuração do amor no capitalismo contemporâneo. Em uma cultura na qual prevalece a orientação do marketing e em que o sucesso material é o objetivo e o valor mais importante, não há por que se espantar com a forte tendência, na qual as relações humanas de amor estão obedecendo aos mesmos modelos que governam o mercado de bens e de trabalho. Ironicamente, Kaium desmonta esse materialismo chinfrim, colocando no lugar dele uma poética do valor enquanto apreço: “amor não aceita cheque/amor é à vista/amor é caro”. Nada de felizes para sempre ou até que a morte nos separe. Sabedoria de marinheiro, sugere o poeta, para melhor viver as razões do coração: “amor é onda/maré baixa/maré alta”.

A poética de Kauim é capaz de unir o amor na falta, desejando o que não temos, e o amor na presença, alegrando-nos com o que já se encontra à nossa disposição. Quem achava, no embalo da Ilha de Caras, que chique é ficar em um hotel cinco estrelas, de pernas para o ar, caiu do cavalo. A voz poética de Kauim transforma ninhos de concreto em pousadas de amor: “hotel/ duas estrelas/ meu/ amor/ e eu”. Coladinhos com vontade, a separação é a dor que arde: “semana santa/sem você/um inferno”. Quando alguém nos afeta de alegria aumenta nossa potência de agir e nosso tesão pela vida. Nem tudo alegra, pois o mundo também entristece. Amiúde aliás. E aí, só nos resta odiá-lo. Ódio pelo que nos faz passar a um estado menos potente de nós mesmos. Considerando que apreciamos a flor em sua integridade, isso significa dizer que os espinhos também precisam ser contemplados em nosso jeito delicado e visceral de amar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

* Professor das Faculdades Fortium e JK, no Distrito Federal. Jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da UFMG.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

.

 

 

 

 

 

 

 

 


publicado por paulokauim às 14:50
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 15 de Agosto de 2013

semente

 

 

 

 

 

O Gama é a Semente do devir

 

 

 

A periferia no Brasil, tornou-se território dos novos quilombos-estéticos-tecnológicos. O Grupo Semente é um deles. A elite dirigente sempre olhou a periferia com desprezo, arrogância e com aquela cara de freira-assistente-social. Engana-se quem pensa encontrar na encenação deste grupo, uma estética menor, amadora ou paroquial. Pelo contrário, o público irá deparar-se com uma obra inventiva e vigorosa com influências das vanguardas que vão de Artaud, Grotowski, Samuel Beckett, Peter Brook, Pina Bausch em interseção com textos de Caio Fernando Abreu, Gero Camilo, Sids Oliveira e dos próprios criadores-pesquisadores do Semente.

A grande arte nos arranca do real, nos leva para o não-lugar da ilusão, e neste, nos faz refletir

sobre a própria realidade. Ou seja, é uma mentira que nos faz lembrar a verdade. É aquela dor que o Pessoa deveras sente. No espetáculo Infinito Vazio, o público percorre o ditirambo guiados por um elenco de atores de primeira grandeza. A constelação de bacantes e sátiros é formada por: Bruna Nayara, Emylle Lacerda, Flavia Reis, Jessica Ximenes, Jullya Graciela, Jussy Nascimento, Nathália Jennifer, Thiago Alves e Vando Farias. Me emociono até agora quando recordo-me do elenco interpretando um choro-canção do Chico Buarque e a canção Ai, da Tata Fernades e do Kléber Albuquerque.

A ilusão e o real estão constantemente mordendo-se nesta encenação. A dramaturgia é erigida

em polifonias, onde estas, criam camadas de signos sonoros, gestuais e poéticos. O Valdeci e o Ricardo César, são encenadores inquietos que apontam sua montagem em eterno devir. Uma personagem-performer em determinado momento diz para a plateia: as coisas novas querem entrar. Em outro momento, uma personagem lança vagidos enquanto toma o seu chá de camomila: o futuro sempre traz coisas novas. O futuro é agora, no Gama, no Espaço Semente. Valdeci e Ricardo César

são certeiros quando lidam com o tempo, sobrepondo o tempo da rua com o tempo das quatro paredes. Os tempos contaminam-se em tangentes, levando para o espectador possibilidades de novas miradas sobre o seu próprio existir infinito e vazio. O espectador aqui é um pescador de ideias e phatos. Para finalizar minha breve crítica, segue um texto do poeta Jorge Salomão, que nos remete ao infinito vazio dos dias de agora: Vozes, pessoas passam... / " onde estou, onde? " / uma casa habitada pelo sol!

Se você deseja ter um sábado ou um domingo fantástico, o espetáculo ficará em cartaz todos os sábados e domingos do mês de agosto. Evoé.

 

 

 

 

 

 

 Paulo kauim

 

 Tive minha iniciação teatral com o José Renato (criador do teatro de arena ) na companhia de Sandro Poloni, ao lado de Maria Della Costa, Oswaldo Loureiro, Yara Amaral, Leonardo Villar e Fernando José no Teatro Villa Lobos - RJ. Com o Sandro Poloni, que era iluminador do Grupo do Antunes Filho, aprendi a amar a iluminação. Minha graduação foi na Faculdade Dulcina de Moraes. Tenho pós-graduação em Arte, Educação e Tecnologias Contemporâneas pela Universidade de Brasília. Trabalhei com Ricardo Torres, Miquéias Paz, Celeiro das Antas. Fui encenador do grupo Anarcocênico.

 

 

 

.


publicado por paulokauim às 07:32
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 14 de Setembro de 2012

BEBA LIFE

 

 

 

BEBA

LIFE

PIGN

ATARI

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CIO

 

 

 

 

 

.


publicado por paulokauim às 03:58
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 18 de Outubro de 2011

o leque da cantora célia porto

 

 

 

 

 

o leque-constelação da cantora célia porto

   


Cada fase de sua vida você elege professores para sua inspiração.

Quando estava aprendendo canto eu me inspirava em Elis Regina,

Nina Simone, Maria Betânia. Como profissional do palco e produção

e uso do Corpo Ary Pararráios , Rubi, Michael jackson, com vivência

e generosidade Rênio Quintas e Bono Vox, como ousadia e coragem

Bjork, sensibilidade Tom Jobim, viver música todos o dias Hermeto

Pascoal, estudar música prof. Ricardo Freire, poesia e letra Paulo Kauim

e Bené Fonteles, liberdade de expressão (Renato Russo). E assim criei

minha identidade.

 

 

 

 

 

 

 

.


publicado por paulokauim às 05:48
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 26 de Outubro de 2008

três pernambucanos na periferia

três pernambucanos na periferia: marcelino freire, paulo kauim e lirinha do cordel do fogo encantado

 

 

noite de ambiência pernambucana:

 

marcelino freire, pk e lirinha ( cordel do fogo encantado )


publicado por paulokauim às 00:41
link do post | comentar | favorito
|

os guerreiros da cooperifa

o poeta márcio, eu e a musa da cooperifa: rose ( muito axé musa bela e guerreira )

 

 

 

eu com os guerreiros da linha de frente da cooperifa ( márcio e a nossa musa rose ) 


publicado por paulokauim às 00:39
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 23 de Março de 2008

brasil continente

 

 

 

 

meus manos belos

 

 

não tenho tido tempo para postar por estes sítios

 

 

não é a epidemia de dengue no rio de janeiro

 

não é o uso dos cartões corporativos

 

nem o trânsito na capital da republiqueta dos bananas

 

que estão me impedindo de dar mais atenção ao meu próprio blog

 

é que a vida real com suas unhas afiadas e sua cara de sol

 

me chama com mais vontade para o trabalho na organização

 

e publicação do meu primeiro livro por uma editora.

 

meu tempo tem sido todo para " meu primeiro filho".

 

 

 

quando tiver dispondo de mais tempo

 

dou o ar da minha graça

 

e volto a cair nesta rede em píxel e poesia

 

 

 

 

um abraço barroco

 

 

 

 

 

paulo kauim

 

 

 

 

 

 

 

 

.


publicado por paulokauim às 06:17
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 14 de Março de 2008

todo mundo


publicado por paulokauim às 01:49
link do post | comentar | favorito
|

.blogosfera

contador grátis

.pesquisar

 

.Agosto 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. 2014 começa na porrada de...

. semente

. BEBA LIFE

. o leque da cantora célia ...

. três pernambucanos na per...

. os guerreiros da cooperif...

. brasil continente

. todo mundo

.arquivos

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Abril 2014

. Janeiro 2014

. Outubro 2013

. Agosto 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

.tags

. todas as tags

.favoritos

. Carioca de (al)gema!

. Graffitis - Discussão

. Rua da Feira

. Tropecei na rede #003

.links

.mim é índio com negro com branco


. ver perfil

. seguir perfil

. 3 seguidores

SAPO Blogs

.subscrever feeds